Educação: acesso e/ou qualidade

Educação: acesso e/ou qualidade

Alexandre Borges Moreno*

Minha vida profissional começou na Agronomia, foi lá que aprendi e compreendi os ciclos e o tempo de cada coisa. Entendi o tempo para preparar o solo, semear, crescer, florescer e colher. Ciclos que renovam a vida e que são diferentes para cada espécie vegetal, cada uma ao seu ritmo. Talvez a produção orgânica, biodinâmica ou qualquer outra que respeite esses ciclos seja a mais próxima desse aprendizado agronômico.

Uma outra coisa que aprendi nessa época foi exatamente o oposto: produzir alimentos em larga escala para atender a demanda de uma população mundial que só cresce. Toda essa história da escalabilidade na produção agrícola começou após a segunda guerra mundial. O mundo estava tão faminto quanto hoje, e entendia-se que não havia como produzir alimentos se não houvesse uma grande mudança.

É nesse instante que ganha contornos a Revolução Verde. Ela teve como precursor o agrônomo norte-americano Norman Borlaug. Na década de 30, Borlaug começou a pesquisar variedades de trigo resistentes a pragas e doenças. Os estudos de Borlaug atraíram a atenção do governo mexicano que o chamaram para coordenar, em 1944, o Programa de Produção Cooperativa de Trigo do México, em parceria com a americana Fundação Rockefeller.

Esse programa resultou em plantas com maior desempenho no campo. No pós-guerra, a Revolução Verde ganha forças e muda a realidade da agricultura até os dias de hoje. Esse fato foi tão importante que Borlaug recebeu ao Prêmio Nobel da Paz, em 1970, por promover a redução da fome do mundo.

Na Educação também não foi muito diferente. Antes da Revolução Industrial, a escola era destinada a uma camada muito reduzida da população. Após a Revolução, a escola expandiu suas fronteiras para diferentes camadas da população, com objetivo de formar operários para as indústrias que surgiam. O modelo industrial possibilitou, na visão de muitos, a universalização da educação – entenda acesso (talvez) – não qualidade.

Sempre o OU e nunca o E 

Fico pensando nas justificativas que utilizamos hoje para matar a educação de qualidade. Ela é similar àquela que justificamos quanto à impossibilidade de produzir alimentos em escala sem pesticidas, produtos geneticamente modificados ou fertilizantes em excesso. Parece que ouço uma frase: “Temos que escolher: OU produzimos em volume (alunos/alimentos) OU morremos de fome (saberes/comida)”. Sempre o OU, nunca o E.

Será que não é possível uma escola de qualidade orgânica? Um espaço que respeite os ciclos de vida? Que entenda as individualidades? Ou continuaremos vivendo a revolução verde também nas escolas, matando nossas crianças e adolescentes afogados em pesticidas?

 

*Alexandre Borges Moreno é fundador e idealizador da Syntese Educação Corporativa. É autor do livro “Facilitação, um jeito de ser – Educação Corporativa pela Abordagem Centrada na Pessoa”.

 

No Comments

Post A Comment