O que os resultados do Saeb têm a ver com os RHs

SAEB e RH

O que os resultados do Saeb têm a ver com os RHs

Alexandre Borges Moreno*

Atuo na área de Educação Corporativa há 15 anos e sou ávido por consumir informação sobre educação em geral. Na última semana, a notícia que circulou na imprensa sobre os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) me causou tristeza e preocupação. Tristeza por me deparar com uma realidade tão dura que envolve o futuro dos jovens do Brasil. Jovens que, em breve, estarão no mercado de trabalho. E este é, justamente, o fato que me traz preocupação.

Lido diariamente com profissionais da área de Recursos Humanos de organizações de diferentes segmentos e portes. Um dos grandes desafios enfrentados por eles é criar soluções de treinamento e desenvolvimento que contribuam com gestores e líderes no aprimoramento de habilidades técnicas e comportamentais. As corporações cada vez mais assumem essa função, já que competências necessárias para o exercício do cargo muitas vezes não fazem parte do perfil dos colaboradores disponíveis para a função – ou já na função.

Se treinar habilidades técnicas e comportamentais já gera uma demanda significativa para a área de Recursos Humanos das empresas, imagine o quanto essa tarefa será árdua e mais volumosa quando os jovens estudantes de hoje chegarem ao mercado de trabalho. Explico:

O Saeb é composto pelas médias de proficiências em Português e Matemática extraídas da Prova Brasil, e pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Além disso, nesta última avaliação, o MEC classificou, pela primeira vez, os níveis de proficiência que estão organizados em uma escala de 0 a 9. Níveis de 0 a 3 são considerados insuficientes; entre 4 e 6, os alunos têm nível de conhecimento básico; e a partir de 7 até 9, adequado.

A última avaliação foi realizada com mais de 50 mil escolas (públicas e particulares – essas de forma opcional) e revela que o ensino médio que foi classificado no nível 2 de proficiência, ou seja, insuficiente. Em Matemática, 71,67% dos alunos estão nesse nível de aprendizado. Desses – acredite – 23% estão no nível zero. Em Português, 70,88% dos jovens têm nível insuficiente de aprendizado, sendo que 23,9% estão no nível zero. Apenas 1,64% estão no nível adequado.

Dados populacionais do IBGE de 2010 mostram que existem cerca de 17 milhões de jovens entre 15 e 19 anos de idade no Brasil. Segundo os dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas 64% dessa população conseguem chegar ao ensino médio (2015). Numa conta grosseira, chegamos a aproximadamente 10,8 milhões de jovens no ensino médio. Assim, se apenas 1,64% estão no nível adequado de proficiência na Língua Portuguesa, estamos falando de cerca de 180 mil alunos que sabem compreender claramente um texto.

Esse número, tristemente revelador, deveria estar piscando como um alerta vermelho na mente dos profissionais de RH. Afinal, estamos, juntos, inseridos em um abismo do qual será penoso sair. Obviamente, é necessário solucionar essa questão na base, ou seja, na educação tradicional. Daí meu interesse tão legítimo pelo tema.

Mas enquanto isso não acontece, não cabe aos profissionais de RH outra decisão senão a de atuar para tornar as questões de treinamento e desenvolvimento uma das prioridades estratégicas da organização. Essa será uma iniciativa necessária não só para oferecer condições para que o colaborador desempenhe melhor sua função, como também esteja preparado para receber promoções e ajudar a companhia a entrar e se manter na rota do crescimento.

Se o que faz uma empresa e sua cultura organizacional são as pessoas, então não há dúvidas de que elas precisam de cuidados. Nosso papel como gestores de pessoas talvez seja o último fio de esperança na qualificação e na construção de um Brasil melhor. Ou ajudamos ou continuaremos vivendo juntos dentro do abismo que se criou dentro do ensino público, principalmente.

Na biologia marinha, o termo ‘abissal’ (permissão para a comparação feita por este engenheiro agrônomo) é utilizado para designar a parte mais profunda e escura dos oceanos. Vivemos uma era de zona abissal da educação brasileira que afeta o país diretamente em todas as demais frentes (saúde, segurança, ambiental etc.), impactando o futuro da nação e, consequentemente, das suas empresas privadas e públicas.

*Alexandre Borges Moreno é fundador e idealizador da Syntese Educação Corporativa. É autor do livro “Facilitação, um jeito de ser – Educação Corporativa pela Abordagem Centrada na Pessoa”.

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